segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mais Museu do Côa

Esta manhã dominical de 22, aproveitando-se a borla e o voluntarismo de uns quantos, o Museu do Côa foi apreciado por 401 visitantes. Que ao final do dia tinham subido para 661.

Em menos de três semanas úteis (o museu encerra às 2ªas e abre das 9/17,30 h fechando à hora de almoço), ou seja entre 31 de Julho e 22 de Agosto, o total de visitantes atingiu a cifra de 7365, o que dá uma média de 368,25/visitantes dia.

Para quem achava que os assuntos do Côa, ao invés de um equívoco de políticas, eram um fiasco de públicos...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"O Paradigma Perdido..." livro do ano (2009) para a revista World Archaeology


A notícia já tem alguns meses, mas como nunca a arquivei aqui, pois aí vai para os mais distraídos. Entre os principais livros de arqueologia publicados no passado ano em todo o mundo, o meu livro mais recente sobre a Arte do Côa foi considerado pela World Archaeology (segundo a selecção de Paul Bahn) como um dos mais belos, considerando-se que a nossa equipa do Côa "é uma das mais importantes no mundo na elaboração dos registos de arte rupestre, como este livro demonstra admiravelmente". E o Museu do Côa aí está agora para o tentar continuar a demonstrar, acrescentarei...

Museu do Côa - 15 Agosto 2010


À atenção dos críticos de serviço.
Ao final do dia contabilizavam-se 619 visitantes registados só hoje! E duas reclamações, que já parece fazerem parte da ementa de cada dia: porque o museu fecha à hora d'almoço e porque encerra às 17,30 h. Pois é! Horário de funcionário público. Para já não dá para mais.
Ainda sem restaurante nem cafetaria. E sem publicidade que se veja. Só a do boca-a-boca e a do mediatismo da coisa. A arquitectura, ou se ama ou se detesta. Não há meio-termo. E os conteúdos, ainda transportando algum academismo, carecem das explicações que o voluntarismo do pessoal do Parque Arqueológico pacientemente vai debitando. E para já, o museu é um sucesso.
Os jornais têm falado numa média diária de 200 visitantes/dia no Museu do Côa desde a sua abertura a 30 de Julho. Não é verdade. Desta vez estamos a ser prejudicados pelos números, que estão acima de 300/dia, com o dia de hoje (ontem) a ultrapassar os 600 e com muita gente a voltar para trás porque chegam perto das horas de fecho.
Desculpem lá voltar outra vez a esta coisa dos números, mas estamos mesmo condenados a estas batalhas de algum simplismo matemático.




Fotos: © AMB

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Museu do Côa e os 300 mil.

O Museu está inaugurado e funciona. Na manhã do 5º dia de abertura atingiu-se o visitante-pagante nº 1000. A que se juntaram mais centena e meia até ao final do dia. E a que se devem acrescentar as centenas que durante o dia de inauguração circularam pelas suas salas (e não entram nas estatísticas). É um sucesso de público neste canto do país a que só as gravuras rupestres parecem lembrar que existe? Claro que sim. É para manter? Esperemos que sim. Mas claro que falta muita coisa, desde logo mais pessoal, pois se os que estavam no Parque Arqueológico já eram poucos para as encomendas (as tais dos 20 mil), pouquíssimos serão agora para mais esta pesadíssima responsabilidade.

Mas que interessa isso aos críticos de serviço, que continuam a apregoar como o grande labéu do Côa não termos conseguido trazer até às gravuras os tais duzentos ou trezentos mil/ano que alguém apregoou, parece que no fatídico 1998? Estaremos nós condenados a penar infinitamente este anúncio obsoleto mais do que José Sócrates as suas penúltimas e últimas promessas eleitorais de que já ninguém se vai lembrando?

Desculpem lá estas tretas de números, mas às vezes tem que ser...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Vale do Côa para os mais distraídos

Não sei se já repararam, mas o Primiero-Ministro José Sócrates só se digna inaugurar (ou aparecer) em sítios de sucesso garantido. A sua presença, ainda que não previamente publicitada, na sexta-feira passada na inauguração do Museu do Côa, parece provar que esta... continua a ser uma história de sucesso... Político, pois claro, mas também arqueológico! E embora os arqueólogos pareçam cada vez mais arredados da coisa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Siega Verde Património da Humanidade como extensão do Vale do Côa


Quase na mesma data em que se inaugurava o Museu do Côa, o sítio de Siega Verde, na margem esquerda do Águeda (um afluente do Douro junto à fronteira) é hoje elevado à dignidade de Património da Humanidade enquanto Extensão do Vale do Côa.
Esta vitória da perseverança é a todos os títulos notável e abre uma nova frente na vida que queremos renovada do próprio Vale do Côa, até pela gestão conjunta que se antevê e se deseja. Mas em primeiro lugar quero dar as minhas felicitações aos nossos amigos da Junta de Castela e Leão...

Até há poucos dias ainda podia ser visitada uma pequena exposição conjunta entre as artes rupestres do Côa e de Siega Verde, na antiga sede do Parque Arqueológico, cuja memória aqui deixo nesta imagem:


E aproveito para anunciar que ainda neste mês de Agosto será inaugurada uma nova exposição em Salamanca sobre a mesma matéria. Exposição que agora ganha um sabor renovado.

Mais recentemente, tive todo o prazer em coordenar e redigir com Javier Fernández Moreno este livrinho que acabou de sair de promoção desta candidatura agora vitoriosa:

A próxima etapa para quem aprecia e compreende verdadeiramente a arte paleolítica de ar livre (e não só a da bacia do Douro) é alargarmos esta classificação aos restantes sítios com arte paleolítica a céu aberto, como sejam (para já), em Portugal os de Mazouco, Fraga do Gato (junto à calçada de Alpajares), Pousadouro, Ribeira da Sardinha, Sampaio e Pedra Escrevida (estes quatro no Vale do Sabor), Poço do Caldeirão e Costalta (Vale do Zêzere) e cavalo isolado do Ocreza. A que há que juntar o notável e precioso sítio ainda inédito de Foz Tua. Porque constituem no seu conjunto uma formidável unidade estilística que demonstra o "génio criador dos primeiros povoadores" vinculado a uma vasto território interior peninsular. E são afinal o nosso primeiro (e magnífico) Império Artístico...

O Vale do Côa e os seus inimigos de estimação


O Museu do Côa, pese embora estar localizado no alto de uma colina, tem muito menos impacto que a abandonada barragem do Côa que, 15 anos depois ainda mostra estas feridas.



Há poucos meses atrás, alguém com uns litros de tinta em carteira, resolveu pichar em letrões garrafais, no próprio piso da estrada que conduz ao abandonado sítio da barragem, esta coisa:


Mais acima, no desvio de uma outra estrada da margem esquerda que conduz ao mesmo abandonado sítio, operários que colocavam então o novo tapete de alcatrão da Nacional 202 garatujavam com o mesmo tipo de tinta que aparecia nas próprias marcas dos seus trabalhos, estoutra coisa:
Inaugurado que está o novo Museu do Côa com o inevitável stresse mediático destes dias de zanguizarra, eis que surge ainda e sempre o inevitável coro de inimigos de estimação do Côa (sem esta malta nem o Museu tinha a mesma graça): que os arqueólogos insistem no erro de quererem fora de água e no seu ambiente arqueológico as ditas gravuras que parece já ninguém apreciar, que não percebem que a água é a coisa mais importante deste século, que falavam (quando éramos jovens e frescos?) em 200.000 visitantes (agora para arredondar já são 300.000) e só têm 20.000 em Foz Côa, que ninguém já hoje vai ao Côa, que o bando de paleolíticos soube enganar bem os governantes da altura (1995)... E parece que todas as outras barragens em construção de nada servem perante a grandeza da abandonada barragem do Côa sem a qual o país será um deserto a prazo! Enfim...
Claro que não se esperará desta gente um mínimo de atenção ou um olhar inteligente à Arte do Côa e ao seu Museu, uma interrogação que ficasse um pouquinho aquém da teoria da conspiração que a todos parece continuar a envolver.
E se o Museu e a anunciada Côa Parque - Fundação para a Salvaguarda e Valorização do Vale do Côa que o governo agora anunciou e cuja falência a prazo (antes sequer de constituída!) começa já a ser anunciada em jornais, não fossem mais que o primeiro e retorcido passo para o retomar da construção da barragem do Côa? Há quem o murmure por aí, na expectativa de que a Unesco classifique Siega Verde e... desclassifique o Côa. Como o Eng. Mira Amaral que, como o outro, sabe que sim, só não sabe é quando. Isto de se ter um banco por trás dá-nos uma segurança na análise da estrutura e da conjuntura...!!!


Fotos: © AMB

sábado, 31 de julho de 2010

A Inauguração





Como me senti ontem na inauguração do Museu do Côa? Pois como um dador anónimo em banco de esperma!
Ausências mais notadas:
dos arquitectos autores do projecto de arquitectura;
dos coordenadores científicos do projecto de museologia (durante a visita oficial à exposição permanente)

Fotos: Joana Baptista

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Convite

Eu sei que em Portugal já não há touros de morte desde o século XVIII, mas !raios!, porque é que cortaram os cornos ao auroque?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Para a história do Museu do Côa. A Primeira Pedra (26 Jan. 2007)

O Museu do Côa será inaugurado no próximo dia 30 de Julho!
Uma inauguração que será presidida pela Ministra da Cultura. É um enorme desafio, o culminar de um projecto e o arranque de um tempo outro. Com altos-e-baixos, ritmos diferentes, coordenações e descoordenações... a verdade é que conseguimos erguer o Museu do Côa. E implantado que está, há agora que dar-lhe vida.
É este o meu Museu?! Pois claro que este é o meu Museu. Mas não é também o meu Museu, porque a insatisfação permanente deve marcar o ritmo do que aí vem.

A partir de uma aspiração começada a ser pensada com a classificação como Património da Humanidade da grande Arte do Côa em Dezembro de 1998, passaram-se 12 anos. Tanto e tão pouco tempo. Aos mais cépticos recordo que Altamira precisou de mais de um século para ver o seu museu concretizado. E a incomparável gruta Chauvet, fechada ao público desde a sua descoberta, precisamente na mesma altura da revelação da Arte do Côa (1994), não tem ainda qualquer museu, pese embora ter sido objecto de um conjunto de estudos exemplares (que continuam).

Para a memória desta obra monumental, que honra a região e o país, aqui deixo algumas imagens do dia do lançamento da primeira pedra, em 26 de Janeiro de 2007, em cerimónia presidida pela então Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima:

Maqueta do Museu do Côa

A equipa dos dois arquitectos projectistas, Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, apresenta a maqueta aos responsáveis governamentais

A primeira pedra, um pequeno bloco de xisto, com o símbolo do Parque Arqueológico e o nome que seria depois abreviado apenas para Museu do Côa. Um trabalho do desenhador Fernando Barbosa, do então Centro Nacional de Arte Rupestre


E aspectos diversos do sepultamento da Primeira Pedra (e como o dia estava ventoso!):






Fotos: © AMB

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ícones da arte rupestre portuguesa

Esta é a mais icónica gravura paleolítica da arte do Vale do Côa (Chãs/Vila Nova de Foz Côa):



Esta é a mais icónica gravura neolítica da arte do Vale do Tejo (Nisa/Portalegre):




Esta é a mais icónica gravura do grupo português da arte do NW Peninsular (Bouça do Colado, Ponte da Barca, na Serra Amarela - Calcolítico/Antiga Idade do Bronze):



Três exemplos, não colhidos ao acaso e que em tempos estudei sem sufocos burocráticos, de algumas das preciosidades rupestres que se guardam em Portugal.
Mas entre a gravura "paleopolítica" do Vale do Côa (mal dos tempos), amplamente documentada e divulgada, e a mais escondida preciosidade de uma oferenda ritual neolítica de um veado morto do sítio de S.Simão, no Vale do Tejo (e por acaso fora da influência das águas da barragem do Fratel!, sendo portanto visitável) e o ainda quase desconhecido (embora publicado há 30 anos) e extraordinário painel da Bouça do Colado, uma das preciosidades arqueológicas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, quantos mundos paralelos prenhes de riqueza simbólica a convidar (ainda e sempre) à reflexão.
Reflexão que não se compadece com os extraordinários e acelerados tempos que vivemos. À beira de inaugurarmos o Museu do Côa que, pese embora as suas insuficiências, honrará os emblemáticos sítios do Vale do Côa. Onde tanto resta por fazer...
Portugal, um país rupestre!

Fotos e desenhos: © AMB

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Um Adeus infinito

MAIO 22, 2010

Informação...

Alguns amigos, estranhando o silêncio, perguntam-me se morri. Não tenho passado bem, mas não morrri. Espero ressuscitar...

Mas não, não ressuscitou mesmo. E foram estas as últimas palavras escritas do meu AMIGO Ademar no seu abnoxio, onde só na véspera tinha percebido "por que Sócrates chegou a primeiro-ministro" e lá se conserva em banho-manel.

Foi o Ademar, ar de profeta e uma gargalhada irrepetível às vaidades e arroubos mundanos, uma figura incontornável da vida cívica e cultural bracarense das últimas décadas. E eu, tolhido do espanto de o sentir (sem mais) baixar à terra, ainda não acredito que perdi o meu sátiro de eleição, e a quem, querido amigo, aqui deixo... um Adeus infinito...

e memoro o teu último (e profético) poema publicado:

Improviso em resposta a um questionário íntimo...

1. Desmarquei todas as consultas
para não saber a data precisa da minha morte
2. e para não ter de renovar
o guarda-roupa
3. a cor das paredes ficou fantástica
não fora a cegueira das mãos
4. os manuais escolares os jornais e
as revistas velhas não couberam no papelão
5. as estantes da sala não celebraram ainda
o milagre da ressurreição
6. os brinquedos do quarto do espelho
continuam à espera de pilhas novas
7. as velas deixaram de contar
o fogo que as silenciou
8. e as flores que entretanto murcharam
também.

Ademar

20.05.2010

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Novos livros: André Santos, "Uma Abordagem Hermenêutica - Fenomenológica à Arte Rupestre da Beira Alta: o caso do Fial (Tondela, Viseu)


É o volume XIII dos Estudos Pré-Históricos, do Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta (Viseu), da autoria de André Tomás Santos e acabou de sair, ainda que com data de 2008.
E trata-se de uma obra rara no contexto da nossa arqueologia rupestre. Desde logo porque se trata de um trabalho monográfico, profundamente pensado e isso é sempre de louvar. E também porque o autor (meu querido amigo e antigo colaborador do CNART, como se sabe, e aqui está também a minha declaração de interesses, como agora se diz) cumpre o que promete. Desde logo apoiado num sólido conhecimento da bibliografia arqueológica pertinente, mas também alicerçado numa base filosófica, cujos conceitos maneja como um profissional da matéria. Entre a hermenêutica (em especial de Ricoeur para o seu modelo textual, mas também de Eco) e a fenomenológica de Heidegger (e os seus tão caros Mundos vivenciais), aqui e ali com um cheirinho marxista. O que é obra!

Mas para além dessa base teórica bem sustentada, a que se poderá apenas contrapor o excessivo vigor com que o autor defende a sua "dama" (mas isso também se deverá à sua própria juventude, afinal ao seu Dasein), é também de registar o notável esforço metodológico e de rigor que foi imprimido a todo o trabalho de descodificação arqueológica propriamente dita (a percepção arqueológica do lugar).

Por tudo isto, o autor não se coíbe de "interpretar", ultrapassando a "geração estruturalista" para quem a forma parecia ser mais importante do que o conteúdo. Mas a quem reconhece virtualidades que contribuíram afinal para o aboutissement fenomenológico. E nesse aspecto, André Tomás assume-se como um verdadeiro pós-estruturalista, aqui pescando o que esta escola teve de importante na identificação das permanências, conferindo simultaneamente às estatísticas um rigor mais do que filosófico.

Aspectos pouco comuns em trabalhos deste tipo e que, por isso mesmo, não deixarão de fazer história na escassa bibliografia rupestre nacional.

Faltou dizer que este brilhante estudo de arqueologia rupestre foi a dissertação de Mestrado do autor, apresentada e defendida na Universidade do Porto em 2004.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Museu do Côa 04 - Museu Nacional de Arte Pré-Histórica







O Museu do Côa, em fase de instalação, é uma importante peça de arquitectura, com uma implantação notável no alteado ângulo da junção do Côa com o Douro. Obra de Pedro Pimentel e Camilo Rebelo, uma jovem e imaginativa dupla de arquitectos do Porto, a quem a arquitectura regional a partir de agora fica a dever esta emblemática criação.

Mas o Museu é muito mais do que a sua arquitectura e envolvente (ainda que isso seja muito, mas muito importante, como é aqui o caso) e não havendo em Portugal outra obra com esta dimensão telúrica inteiramente dedicada à nossa arte pré-histórica, bom seria que se ponderasse a sua classificação como Museu Nacional, independentemente do modelo de gestão que vier a ser adoptado. À semelhança, por exemplo, do que fez a França, com o seu Museu Nacional de Pré-história, localizado na aldeia de Les Eyzies, no coração de uma das mais significativas regiões ricas em testemunhos da pré-história antiga europeia.

Não há em Portugal (e duvido que algum dia isso possa vir a acontecer) uma região com a riqueza e a qualidade sublime da arte pré-histórica do Côa. E temos neste momento esta integradora peça de arquitectura já implantada no coração do Côa. Está longe de Lisboa e do Porto, e de Braga e de Coimbra e ainda mais do Algarve, é verdade. Mas também por isso mesmo deve pensar-se que este novo Museu merecerá essa dignidade. Ainda que pensada no tempo longo...

© Fotos: AMB (Canon G10)

Associação dos Arqueólogos Portugueses "Em Defesa do Vale do Côa"

Passado que está o longo intermezzo eleitoral, que também no Vale do Côa deixou as suas marcas, em particular pelo resultado nas autárquicas locais que desta vez deram a vitória ao PSD, é tempo de voltar a repensar-se o Museu do Côa.

A AAP aprovou no passado dia 16 o seguinte comunicado - transcrito do blog http://atribunadocarmo.wordpress.com/ com o qual nas suas linhas gerais se concorda:

EM DEFESA DO VALE DO CÔA

Tendo em conta as declarações do Ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, em 29 de Agosto de 2009, aquando de uma visita técnica ao Museu do Côa, em que propôs a criação de uma sociedade anónima para a gestão do património que lhe está associado, várias foram as dúvidas e preocupações que se levantaram junto da comunidade arqueológica sobre a natureza do modelo de gestão e o futuro do vale do Côa. Com efeito, este património é um recurso de excepcional importância, mas muito sensível e não renovável, que não pode ser gerido como uma mera mercadoria que importa rentabilizar de imediato e a qualquer preço.

A Associação dos Arqueólogos Portugueses, reunida em Assembleia-Geral no dia 16 de Outubro de 2009, considera, assim, que a Arte do Côa, pela sua importância internacionalmente reconhecida enquanto Património da Humanidade, deverá inequivocamente ser gerida por um serviço dependente da administração central. O Estado é o primeiro e principal responsável pela conservação, estudo e divulgação deste património, não só perante o país, também perante a comunidade internacional, responsabilidade que não pode ser em caso algum alienada.

Esta posição não invalida o envolvimento de outras entidades, públicas e privadas, de âmbito internacional, nacional, regional e local, nomeadamente autarquias e associações cívicas, em projectos e iniciativas desenvolvidos pelo Museu do Côa e pelo Parque Arqueológico do Vale do Côa.

Considera-se, por outro lado, que a Arte Rupestre é a razão essencial da existência do Museu do Côa e do Parque Arqueológico do Vale do Côa, que devem constituir uma única entidade.

Dada a importância excepcional da Arte Rupestre do Côa, a Associação dos Arqueólogos Portugueses propõe, assim, ao Ministério da Cultura que promova a discussão pública deste processo, pois o mesmo só poderá ser levado a bom termo com a mobilização e o envolvimento de todas as pessoas e entidades interessadas na preservação e valorização de um património que a todos pertence.

A Associação dos Arqueólogos Portugueses alerta ainda as entidades responsáveis para a necessidade absoluta de manutenção do acesso controlado a um recurso muito sensível, até porque uma percepção adequada da maior parte das gravuras requer uma visita acompanhada de um guia devidamente preparado para o efeito, tal como acontece nos poucos sítios de Arte Rupestre Paleolítica ainda abertos ao público em toda a Europa. Nestas circunstâncias, o desejável aumento do número de visitantes, deverá basear-se no gradual aumento do número de guias qualificados e dos veículos disponíveis, e não na construção de novas estradas e na abertura descontrolada do acesso às gravuras, para visitas rápidas e superficiais, não geradoras de emprego e de mais valias para a região.

Lisboa, Museu Arqueológico do Carmo, 16 de Outubro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Helena Matos e o Vale do Côa

"Recordo que em 1994 se anunciava que 300 mil turistas iriam anualmente rumar a Foz Côa para conhecerem as ditas gravuras. O país então achava-se tão rico que deitou alegremente fora o dinheiro já investido na barragem. Alguém que questionasse a desmesura deste êxtase místico com as inscrições do Côa e o desprezo por aquelas outras que simultaneamente eram submersas em Alqueva era tratado no mínimo como troglodita. No Côa apareceram poucos turistas e não consta que algum deles tenha aconselhado a experiência a quem quer que fosse. Na míngua de turistas encomendaram-se filmes que foram justificados como a derradeira tentativa de chamar a atenção internacional para o Parque Arqueológico de Foz Côa e construiu-se o museu..."
Helena Matos, Público, 1 de Out.'09, p. 37

A citação é longa mas justifica-se, pois esta opinativa inimiga de estimação do Vale do Côa não perde uma oportunidade. Os considerandos são sempre os mesmos e de nada serve desmenti-los. Da mesma maneira que Miguel Sousa Tavares episodicamente traz à liça os disparates de Bednarik dos idos de 95, sempre apresentados como verdades absolutas da "modernidade" do Côa, também Helena Matos regurgita ontem, hoje e amanhã, as suas verdades feitas sobre o deslavado turistame em Foz Côa e de como tratámos mal (!!??) as gravuras afogadas de Alqueva.

Sendo uma colunista tão ciosa das suas verdades (porque tão repetidas) apenas testadas em prosa de imprensa (a "ciência" do diz que disse), e como não acredito que alguma vez tenha visitado o Vale do Côa, pois daqui lhe deixo o convite para que o visite com olhos de ver e ouvidos disso mesmo. Com ou sem museu e com ou sem arte contemporânea (isso é toda uma outra história). Mas não se esqueça que o Parque Arqueológico não tem capacidade para receber todos os turistas que o visitam sem marcação. Convém por isso inscrever-se previamente, já que deverá querer fazer uma visita anónima. E se quiser perder uma tarde a ler as opiniões de alguns dos muitos turistas que por aqui foram passando, seguramente que levará muito que (re)pensar. A propósito, já viu (leu) o Fugas de hoje? Por acaso um suplemento do mesmo jornal em que escreve e que dois dias depois acaba por desmentir a sua prosa envenenada através da "fascinante experiência" da visita nocturna à Penascosa. E ainda por cima recomenda e aconselha...

Só lamento que, conhecendo muito bem o processo Côa e não tendo já muita paciência para este tipo de opinião não fundamentada (ela sim troglodita), e lendo estas mentirolas apresentadas sempre de uma forma tão escorreita e empinada, terei de dar um grande, muito grande, desconto às suas opiniões sobre a outra matéria de facto sobre que por'í vai perorando. É que o politicamente incorrecto quando não devidamente fundamentado é tão inócuo como o outro, o correcto. E acaba por ter o mesmo efeito. Ou seja, nenhum!

domingo, 13 de setembro de 2009

Novos livros:Arte Prehistorico al aire libre en el Sur de Europa. Actas

Recolhem-se nestas Actas (Ed. Rodrigo de Balbín), a maioria dos textos das conferências apresentadas no Curso titulado "Arte rupestre al aire libre: investigación, protección y difusión" que teve lugar entre 15 e 17 de Junho de 2006 em Salamanca, promovido pela Consejería de Cultura da Junta de Castilla y León, que também edita. Uma publicação que tardava e que agora surge finalmente, ainda que com data de edição de 2008.

É um grosso e rico volume de 500 páginas, que se constitui como a mais recente e documentada síntese em particular da arte paleolítica de ar livre peninsular, mas também com algumas reflexões sobre a arte esquemática e seus mundos paralelos.
Embora com alguma informação datada, como a dos inventários da arte do Côa entretanto já ampliados (e também já publicados), é no entanto uma obra de referência pela riqueza dos diversos contributos e pelas diferentes perspectivas de análise metodológica.
E neste particular gostaria de destacar o texto de Primitiva Bueno, Rodrigo de Balbín e Javier Alcolea sobre o "Estilo V" que pretende caracterizar o ciclo da arte da transição tardiglaciar Magdalenense/Epipaleolítico na bacia do Douro (Foz Côa e Siega Verde entre os sítios maiores), datável entre c. de 11 500 e 9 000 BP [destaque para a aproximação a estas datas das cronologias absolutas do nível 4 do Fariseu (Vale do Côa) e da sua arte móvel incisa sobre placas de xisto]. Uma importantíssima reflexão em aberto, independentemente de se concordar ou não com o epíteto de Estilo V, que remete desde logo para os 4 clássicos estilos de Leroi-Gourhan para a arte das grutas e que hoje perderam muita da sua actualidade. De qualquer forma, um debate para o qual a continuação do estudo da arte do Côa, em particular do seu "santuário 2", será determinante.
Um dos mais importantes painéis inserível neste horizonte de transição da arte paleolítica para o mundo esquemático é precisamente a rocha 16 do Vale de José Esteves, cuja réplica será exposta no Museu do Côa - já que o original só é verdadeiramente acessível a "iniciados".

Novos livros em arte paleolítica: Creswell Crags



Coordenado por Paul Bahn e Paul Pettitt, em edição da English Heritage 2009, foi há pouco publicada a esperada monografia das gravuras de Creswell Crags, quase todas incisas na pequena cavidade de Church Hole, o primeiro sítio com arte parietal plistocénica até agora descoberto nas Ilhas Britânicas (revelado em 2003). E não foi uma descoberta casual, mas antes um projecto pensado, conduzido e apoiado por autênticos especialistas em arte paleolítica, nomeadamente Michel Lorblanchet. Não havia de facto razão plausível para que a arte paleolítica não se tivesse expandido até às Ilhas Britânicas. E mais sítios aí aparecerão.

Após análises extremamente difíceis e minuciosas em paredes muito erodidas e irregulares, são identificados e agora publicados 25 motivos incisos, que os autores consideram como tendo morfologia glaciar (Magdalenense). E alertam para as dificuldades que tiveram de ser ultrapassadas neste tipo de levantamentos rupestres, considerando-se (e bem a nosso ver) que é preferível deixar de fora os casos duvidosos, do que publicarem-se desenhos erróneos que apenas irão introduzir ruído nos debates sobre as temáticas paleolíticas e as suas tabelas de dispersão. E nisto nos irmanamos, nesta necessidade de rigor na análise da arte rupestre - e não só na paleolítica.

O estudo de Creswell Crags é aliás exemplar pelo debate que originou sobre a metodologia dos levantamentos em arqueologia rupestre, concluindo-se que é fundamental o conhecimento pluridisciplinar muito aprofundado quer dos sítios em análise, quer da "maneira" de trabalhar (o estilo, a técnica, a forma de elaboração, o espírito do tempo...) dos próprios artistas. Tudo afinal o que sempre defendemos (e praticamos) no Vale do Côa.

A cultura nos debates

Saúde-se o regresso da política. Mas foi confrangedor assistir a esta cruzada maratona debatística entre candidatos e candidatos-presumíveis a primeiro-ministro que há pouco terminou nas televisões por entre os habituais (e quase imbatíveis) truques retóricos de José Sócrates e uma inenarrável Ferreira Leite sem chama, sem alma, sem programa... E sabem que mais? Não me lembro de ter ouvido uma vez que fora em quase 10 horas de conversas cronometradas, falar-se de uma qualquer ideia ou projecto(zinho) para a Cultura em um próximo quadriénio. Onde encaixa nisto o Museu do Côa?

domingo, 30 de agosto de 2009

Museu do Côa 03


Fotos: AMB//29AGO'09

Em finais do século passado houve em Portugal um referendo à regionalização. Uma coisa mal amanhada e pior cozinhada e daí o seu chumbo em urnas, mas votei a favor. Voto que repetiria hoje, pese embora o interior seja o que é, despovoado, inculto e descapitalizado. Mas ainda assim com muita gente interessante! Por isso sou também adepto de uma gestão descentralizada do Museu do Côa e das diversas áreas protegidas do país, embora reconheça a dificuldade (e os riscos) que tudo isto encerra. Mas, também por isso, desde sempre optei por trabalhar no interior do país.
É verdade que, aproveitando o balanço da reorganização da arqueologia nacional em finais da década passada e fruto da batalha do Côa, quando conseguimos que fosse criado um serviço com dimensão nacional devotado ao estudo da nossa arte rupestre, lutei para que ele ficasse sediado em terras do interior e assim o CNART acabou por ficar em Vila Nova de Foz Côa. Sem apoio político, morreu na primeira oportunidade e o seu contributo para a "invenção" do museu do Côa não foi sequer ontem lembrado nos discursos de circunstância na visita do Ministro da Cultura às instalações do futuro museu. E, no entanto, sem o CNART não haveria discurso museológico consequente neste museu...

O Ministro da Cultura passou dois dias, creio que bastante agradáveis, no Vale do Côa. Tive todo o prazer em acompanhá-lo e explicar-lhe a importância mundial do ciclo artístico paleolítico do Côa. Homem inteligente, certamente não lhe terá escapado que esta história do Côa ultrapassa a pequenez do país. E as soluções para a gestão que se quer renovada do Parque Arqueológico do Vale do Côa e agora do seu museu anexo, que brevemente será inaugurado, não são fáceis em tempos de magras vacas, nem saltam facilmente de dentro de uma qualquer cartola. Como se verá nos meses que aí vêm.