quarta-feira, 30 de julho de 2008

A Tragédia da Arte do Vale do Tejo

Foto: AMB

As Portas de Ródão lá continuam, sem a imponência que a subida das águas do Tejo lhe retiraram em meados dos anos 70, após o encerramento das comportas da barragem de Fratel.

Foto: AMB

Aqui estava o axis mundi do Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo, um território com mais de 30 quilómetros de extensão monumentalizado através da simbólica pré-histórica.
E aqui começou a minha paixão pela arte mais arcaica dos primeiros fazedores de cultura. E também o primeiro e mais fundo lamento pelo implacável jogo de forças entre os construtores de barragens e o salvamento do nosso imaginário rupestre, que teima em aliar os seus maiores núcleos aos grandes cursos de água! Cuja maior vitória para o campo rupestre se haveria de dar no Vale do Côa. Mas tantos outros sítios engolidos foram, alguns sem qualquer recolha arqueológica, como no Zêzere, onde Castelo de Bode terá feito desaparecer tanta arte rupestre, sem ninguém dar por isso!
Mas antes desses dias de final de milénio no Côa, Portugal afundaria sem grandes sobressaltos o maior complexo peninsular de arte rupestre holocénica. Dezenas de milhar de gravuras picotadas nos xistos aflorados de ambas as margens do Tejo desde a sua entrada em Portugal, junto à foz do Sever, até à embocadura do Ocreza. Mas tantas mais haveria no chamado Tejo Internacional, onde a barragem de Cedillo nunca nos permitiu grandes observações. Todo um capítulo de uma civilização pré-histórica engolido pelas águas de uma pequena barragem que crismada foi com o nome de uma das suas principais estações rupestres: Fratel. E lá ficou, atolada até hoje na massa líquida e certamente sepultada sob grossas capas sedimentares, a sua notabilíssima rocha F-155 a quem em tempos dediquei um livrinho.

Viviam-se os últimos dias de estertor do Estado Novo, a democracia irrompia num ar de festa infinita, a felicidade parecia estar ali ao virar da esquina da história... Algumas reportagens de jornais do tempo, como os extintos Diário de Lisboa (o meu jornal de tantos anos!) e o República, são elementos preciosos que documentam muito bem o também estertor ao olhar contemporâneo da Arte do Tejo, cujo cair de pano acompanhava ingloriamente os dias do fim da ditadura. Ainda se tentou demagogicamente comparar este crime lesa-arqueológico com aval estatal, com o que se passou em anos mais recentes no Guadiana, durante a etapa final de construção do Alqueva. É comparar o sol com uma candeia bruxuleante!

Passaram mais de 30 anos. E eu com eles. É espantoso como guardo tão vivas na memória as milhares de imagens rupestres do Tejo que nunca mais ninguém veria em toda a sua glória e pelas quais em tempos peregrinei, uma a uma, por todas e cada uma! E a espaços lá volto tantas vezes, sabendo que mais de 90% da Arte do Tejo continua selada pelo manto, ora cálido, ora lodoso e mal-cheiroso, das águas presas do maior dos rios peninsulares.

Sempre desejei que se fizesse na região uma grande estrutura museológica que valorizasse o importantíssimo património rupestre que grande parte dos portugueses desconhece quase em absoluto. Vila Velha de Ródão e Nisa partilham quase na totalidade os principais sítios rupestres do Tejo. Um restinho ficou em Mação (e que bem o tem valorizado através do IPTomar), na margem direita do Ocreza, aqui com o notável exemplo da única gravura paleolítica conhecida em todo o complexo - o enigmático cavalo do Ocreza que a nossa equipa do ex-CNART descobriu numa singular expedição ao sítio no ano 2000. 
Nunca se contabilizou o número exaustivo de gravuras que no Tejo se descobriram e parcialmente se estudaram. Mas sítios como Fratel, Cachão do Algarve e S. Simão guardam por si só largos milhares de gravuras. E muitas delas nunca puderam sequer ser observadas, pois já no momento da sua revelação estavam permanentemente submersas. 
Ensaiámos muitas vezes junto dos sucessivos autarcas e responsáveis políticos fazer ali qualquer coisa que lembrasse o grande património rupestre afogado, mas que também memorasse uma das maiores aventuras da arqueologia portuguesa do século XX que foi todo o trabalho de salvamento da Arte do Tejo. Feito do nada! E que formou toda uma geração de arqueólogos, a que António Carlos Silva chamou simbolicamente, num texto de 1994, a "geração do Tejo". 
E alguma coisa se foi fazendo, em especial em Vila Velha de Ródão (que excelente romagem a festa dos 30 anos do salvamento da Arte do Tejo! obrigado presidenta Maria do Carmo), onde se criou uma sala com uma exposição permanente sobre a arqueologia local e onde a Arte do Tejo sempre teve o seu lugar de eleição (há poucos anos refeita com o apoio do Museu Nacional de Arqueologia). O antigo e já falecido presidente da câmara Baptista Martins foi sempre um entusiasta destas coisas, honra lhe seja. Através dele, para ali cedi algumas centenas de diapositivos que tinha feito no Tejo nos anos 70.
Nos últimos anos tem sido o entusiasmo da actual presidenta Maria do Carmo Sequeira que tem mantido vivo este legado. Há 5 anos atrás dedicou mesmo à temática rupestre do Tejo o cartaz principal da sua VII Feira das Actividades Económicas do concelho. E para ali tivemos o gratíssimo prazer de colaborar na execução de um pavilhão todo ele emoldurado pela Arte do Tejo. E onde se aproveitou a oportunidade para lançar mais uma vez a ideia de criação de um grande Centro de Interpretação da Arte do Tejo, uma ideia que também é bem acolhida pela actual presidenta da Câmara de Nisa.

Fotos: AMB

Parece que é chegada a hora de avançarmos para uma maior valorização local da Arte do Tejo. Que, independentemente de tudo o que agora se faça, terá um dia seguramente o seu Museu próprio, um pouco à semelhança do que estamos a criar para o Vale do Côa. Porque o merece por direito e méritos próprios.

O curioso disto tudo é que qualquer destes concelhos figura na lista dos mais envelhecidos não só do país como da Europa! E a dita barragem de Fratel não lhes trouxe aparentemente benefícios de maior, nem é fonte de qualquer emprego local. Pelo contrário, afundou-lhes o seu mais importante legado pré-histórico e afastou-lhes o tal turismo cultural que hoje todos os concelhos do interior procuram atrair. Bom seria que também a EDP, a entidade exploradora da barragem, ao menos financiasse com a dignidade que o merece a construção de um grande museu dedicado ao Complexo de Arte Rupestre do Tejo. É o mínimo que hoje devíamos exigir. Porque a memória não tem preço e o passado é cada vez mais presente!



 

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro AMB, como foi dito no Debate sobre a Linha do Tua, no dia 25, na Casa dos Transmontanos no Porto, se as barragens medissem o desenvolvimento, o Douro era a zona mais desenvolvida do país. Quando houver massa crítica suficiente, gente do género MST e dos seus "engenheiros à solta", ficarão no lugar que merecem, um lugar um tanto "troglodita", desculpando-me o termo. Porventura, com a caninha de pesca a passar o tempo na solidão da albufeira rabiscando figuras nas pedras por perto.
Mas que quer, as galinhas do Salazar fizeram imenso cocó, e a gente tem de se haver com ele, que sujou tudo.
Felizmente vai aparecendo gente que defendeu o Côa e gente como as presidentes de Vila V. Ródão ou de Nisa.
G.Guerreiro

Sofia Silvério disse...

Sempre achei que o verdadeiro arqueólogo tem que ser apaixonado pelo seu trabalho...fiquei ainda mais convencida. Obrigada...é um alento ler os seus textos.